Ter saúde é natural: Papinho sobre a imunidade

– Se encontrarem o inimigo, comam-no!

É com essa ordem que o time das células fagócitas entra em campo. Anticorpos, células macrófagas, basófilas, eosinófilas, neutrófilas, plateletas, imunoglobulinas, interferon, citoquinas, interleucinas e muitas outras percorrem o sangue e comem os seres indesejáveis, assim mesmo: nhac! Quando fazem contato com algo que precisa ser destruído, seja uma bactéria ou um material inerte como poeira, seu citoplasma envolve a partícula e forma uma bolsinha, que se funde com outro saquinho que contém enzimas digestivas. Se a composição química da substância estranha permite sua degradação pelas enzimas, ela é destruída; se não, é retida no fagócito e impedida de maiores contatos com o hospedeiro; mais tarde será despejada na linfa.

Os tecidos que formam baço, fígado, nódulos linfáticos e medula óssea são especialmente ricos em fagócitos.

Entre as células brancas do sangue há fagócitos capazes de migrar através dos vasos sanguíneos para áreas de inflamação ou infecção. Lá se multiplicam de acordo com a necessidade. Mas também existem fagócitos de plantão em todos os tecidos, formando um sistema chamado reticuloendotelial. Isso faz com que possam controlar uma invasão bacteriana em qualquer lugar, se ela não for muito grande nem muito virulenta. Também são eles que engolem as células vermelhas cansadas ao fim de suas vidinhas de cento e vinte dias.

Nas verminoses, os leucócitos que aparecem mais são os eosinófilos. Eles se multiplicam para destruir a cutícula que reveste os vermes grandes. Geralmente o exame de sangue acusa uma taxa mais alta de eosinófilos no início da infecção, que depois vai caindo; a duração da fase alta e da volta ao normal depende do parasita, do paciente, da circunstância, e são necessários vários exames de sangue seguidos para entender o que está acontecendo.

Segundo o professor J.-J. Rousset, em seu livro Maladies Parasitaires, uma pequena elevação da taxa de eosinófilos remete a oxiúros (banais, diz ele), enquanto a elevação súbita e expressiva faz pensar numa tênia; e aí começa toda uma estratégia de exames de sangue e fezes, repetidos, para achar ovos, eliminar as possibilidades de fascíolas, cistos hidáticos, larva migrans, triquinas. Quando há estrongilóides as taxas ficam subindo e descendo feito um ioiô.

A presença de vermes significa que uma parte do potencial orgânico de defesa está mobilizada numa guerra sem fim, deixando talvez de cumprir outras tarefas imunitárias – como, por exemplo, identificar e destruir células cancerosas para evitar o crescimento de tumores, ou simplesmente funcionar como barreira contra as gripes, viroses, alergias e dengues da vida.

A pele, o sistema respiratório e o tubo gastrintestinal são as três barreiras do corpo contra invasores de todosos tipos – vermes, protozoários, bactérias, vírus, fungos, toxinas e proteínas estranhas de qualquer origem.

A pele
tem uma camada externa de matéria morta e duas internas bem vivinhas, profusamente irrigadas pelo sangue e visitadas por uma intrincada rede de vasos linfáticos.

A linfa
é um fluido clarinho que banha os tecidos do organismo, regulando o teor de líquidos, devolvendo proteínas ao sangue e removendo bactérias, partículas estranhas e células anômalas; muito rica em linfócitos e células macrófagas que identificam e comem substâncias indesejáveis; ou seja, a linfa é a linha de frente da defesa imunológica. O material apreendido vai dar nos gânglios linfáticos, de onde é encaminhado para fora do corpo pela corrente sanguínea. Gânglios inchados mostram que há infecção em algum lugar e que a linfa está agindo.

O sistema respiratório,
além de também ser protegido pela ação da linfa, tem no seu revestimento interno uma camadinha de células cheias de cílios, recobertas por um muco altamente viscoso onde ficam presas as partículas indesejáveis; esse muco é empurrado para a faringe pelo movimento dos cílios, e de lá é engolido ou tossido.

O grande tubo gastrointestinal
é uma das partes mais complexas do organismo. Para começar, é parte externa – assim como quintal, área de serviço, depósito, lavanderia, portão dos fundos. Parte externa que foi se virando para dentro, se invaginando e formando um túnel por onde as coisas entram e saem. Florestinha tropical sofisticada, reserva extrativista da vida microbiana, nosso trato gastrointestinal começa no nariz e na boca, incluindo adenóides, sínus e amígdalas; termina no ânus.

O nariz
é a entrada e saída dos gases (oxigênio, dióxido de carbono) que formam e sustentam o pulmão, que produz oxigênio para o sangue, e dos resíduos que se transformam em muco.

A boca
é entrada (eventualmente saída) de alimentos e bebidas que formam o sangue e renovam as células. A boca também respira e também elimina muco.

Amígdalas
são duas estruturas linfáticas ovaladas, uma de cada lado da garganta, que produzem anticorpos contra invasores que entram pela boca e pelo nariz. São ajudadas pelas adenóides, estruturas semelhantes que ficam atrás do nariz.

Aí vêm o estômago,
um meio tão ácido que poucos micróbios sobreviveriam nele, e o intestino delgado, com sete metros de comprimento, onde o sistema imunológico mantém cerca de 40 pequenos territórios, as placas de Peyer.

Essas placas de Peyer,
visíveis a olho nu, são pedacinhos de tecido redondos ou ovais que não apresentam o relevo característico da mucosa intestinal. Pertencem ao conjunto linfático e sua função é armazenar células linfóides. Que, verdade seja dita, são o máximo. Produzidas pelo timo e pela medula óssea, elas viajam para os tecidos linfóides e permanecem imaturas até reconhecerem alguma substância a combater. Aí amadurecem instantaneamente. Se forem células T, produzidas pelo timo, proliferam e se dividem em três categorias: as supressoras, as matadoras e as auxiliares (estas em maioria). Se forem células B, produzidas pela medula óssea, ao reconhecerem o invasor elas também amadurecem – e se tornam capazes de fabricar imunoglobulinas, que são proteínas especializadíssimas em lutar pelo organismo, tanto que se chamam anticorpos.

O apêndice
é considerado um nódulo linfático que virou uma estrutura fixa. Pertence ao intestino grosso, que tem cerca de metro e meio e é a parte final do tubo gastrointestinal.

O sistema linfático
inclui o timo, a medula óssea, o baço, gânglios espalhados nas axilas, no mesentério e nas virilhas, amígdalas, adenóides, tecidos linfóides bronquiais, intestinais e urogenitais, e uma rede de vasos comparável à do sangue.

Você acha pouco?

do livro Almanaque de Bichos que dão em Gente

25 comentários em Ter saúde é natural: Papinho sobre a imunidade

  1. Querida Sonia,fico sempre encantatada com tudo que voce escreve.Eu,como médica me atualizo sempre com seus escritos.Voce nos lembra de assuntos fundamentais para o nosso proprio entedimento.
    Obrigada,Beatriz Horta Neves

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  2. Oi, Beatriz, que bom encontrar você de novo. Muito obrigada pela generosidade das palavras e do gesto. Um abraço grande!

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  3. UAU!
    Fascinante!!!
    Sempre aprendo um monte de coisas quando passo por aqui, muito obrigada!!!

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  4. Sônia
    o texto flui e ficamos com vontade de quero mais… viciante!
    Bjs
    Leila

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  5. sonia..quando uma pessoa possui uma grande quantidade de produzir muco ou seja muita secreção no nariz – mesmo sem estar gripado ou com a rinite tb, voce acredita ser candidiase ou outro fungo qualquer. acompanho seu blog desde que estava com sintomas de candidiase, adorei as dicas, o blog, enfim, virei fã de carteirinha – lendo mais a respeito, estou analisando o meu marido e ele desde que conheço, vem “esbanjando secreções” diariamente e nos ultimos tempos vem despertando interesse aos doces dizendo não conseguir ficar sem. voce acha que ele tem a “maledita candidiase” e como fazer para ele descobrir se sim.
    obrigada e beijus grandes.

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  6. Oi, Tathi e Le, obrigada pela força 🙂

    Oi, Cleu, muita coisa produz muco, você teria que analisar melhor a alimentação dele antes de pensar em cândida. Tem um questionário que ajuda muito em http://correcotia.com/mulheres/questionario.pdf , já viu? Um abraço, boa semana!

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  7. Sonia, estou me tratando de candidíase conforme suas orientações e me sinto muito melhor. Até tive umas recaídas de vaginose bacteriana, mas tenho me recuperado sem apelar para os remédios tradicionais… Muito obrigada! Tenho um outro problema: desde minha primeira gestação, tenho plaquetas baixas. Tomei doses elevadas de corticóides nas duas gestações, mas qualquer coisa, as plaquetas voltam a cair… Em junho, tomei vermífugo, comecei a dieta rigorosamente. Em julho, fiz um exame completo que deu triglicerídios em 279 (mesmo não comendo carboidratos – quando como dá 400 / 500. Tenho esse problema desde os 20 anos, acho que é genético) e plaquetas 50mil. Adoro seu blog, por isso pensei em quem sabe vc podia me dar uma luz.
    Se não, muito obrigada pelo que já me ensinou. Bjs, Andy

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  8. Oi, Andy, eu não entendo das questões do sangue; sei que a candidíase potencializa tudo o que ruim e que os vermes roubam muito, mas não tenho como ajudar diretamente na questão das plaquetas. Vou encaminhar sua pergunta à Susana Ayres, que agora atende em Brasília, para ver se ela dá uma luz. Abração!

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  9. Estou realmente emocionada!!!
    Tanto tempo procurando uma informação correta e acho que agora encontrei em seu site!
    Vou começar uma dieta de verdade amanhã e me livrar de minha baixa resistência… Candidíase, hipotireoidismo, acnes… nossa, estou bem cansada de tudo isso!
    Obrigada Sonia… seu site já está entre meus favoritos diários!

    Abraços
    Michelle

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  10. Oi, Michelle, bem-vinda – e boa sorte em tudo! Um abraço 🙂

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  11. Obrigada pelo retorno. Se sua amiga, Suzana Ayres, lhe responder, me repasse, please. Adoro o site! Bjs, Andy

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  12. Oi, Andy, por favor me mande um email para eu enviar diretamente o que ela respondeu: shirsch@terra.com.br . Beijo!

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  13. Já mandei. Muito obrigada mesmo. Bjs, Andy

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  14. Sonia cada vez que entro no seu blog encontro informações super importantes.
    Continuo cada vez mais sua fã!
    São aulas gostosas de ter, leitura deliciosa!
    Bjs com carinho

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  15. Oi, Patricia, fico muito contente de poder fazer isso e ser tão bem recebida, ainda mais nesse mundo livre que (ainda) é a internet, utopia das utopias… Abração e muito obrigada!

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  16. Olá Sonia,

    Leio seus livros desde menina. Eles influenciaram não só meus hábitos de vida e de alimentação, mas também a minha forma de escrever. Sua prosa é deliciosa! Moro em Curitiba, sou taróloga e professora de Literatura. Escrevo-lhe para pedir uma orientação especial.
    Tenho 47 anos e três filhas, a mais nova com 2 anos. Ela foi bem até os 8 meses, idade em que começou a cair para os lados quando estava sentadinha. Fizemos uma ressonância magnética do crânio e descobrimos um processo degenerativo. Aventa-se que ela tenha uma síndrome muito rara, chamada Síndrome de Menkes. Essa doença acomete meninos. Parece que só existem registrados na literatura médica seis meninas com esse problema, que é causado por uma deficiência em cobre.
    São muitos os detalhes. Fiz um blog para ela: http://www.tarsila.shutterfly.com onde disponibilizo os exames, fotos, histórico.
    E é mais do que chegada a hora de procurar uma nutricionista, eu sei. Mas aqui em Curitiba só conheço nutricionistas previsíveis, se é que posso me expressar dessa forma. E sei que Tarsila ganharia muito com uma alimentação adequada para o seu caso.
    Sou amiga da Márcia Frazão – quando comentei a questão da minha bebê, Márcia sugeriu que eu lhe procurasse. Será que podíamos manter uma correspondência? Será que você teria alguém para me indicar em Curitiba? Prometo não ser gulosa. Sei que os afazeres são muitos, mas lhe peço de coração uma força para a Tarsila.

    Abraços
    Zoe
    zoedecamaris@gmail.com

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  17. Oi, Zoe, adoraria ajudar mas não conheço ninguém em Curitiba que possa indicar. Você já andou pela medicina ortomolecular? A suplementação de cobre é possível? Outro dia postei sobre a moringa, uma planta rica em cobre, indicada inclusive para degeneração macular. É um grão de pó, mas quem sabe auxilia? http://www.soniahirsch.com/2010/04/moringa-planta-boa-ate-contra.html . Um abração!

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  18. Oi Sonia,

    A suplementação em cobre é controvertida. Nos casos de meninos Menkes, só até os 10 dias de idade (sulfato de cobre ou cobre histidina). No caso das meninas, das seis meninas registradas na literatura médica do planeta, cada caso é um caso e essa é a minha grande pergunta que ninguém consegue responder. Será que estando a ceruloplasmina ativa, que é a proteína que conduz o cobre, uma reposição (homeopática, por exemplo, para não intoxicá-la), não seria efetiva?

    A falta de cobre cria problemas na assimilação do colágeno (sem cobre ele não se forma direito), portanto ela tem a pele estranha, seca, um tanto elástica. Tenho dado bastante inhame, lembrando das leituras que fiz dos seus livros.

    O cálcio também é importante por causa da fragilidade das articulações, acredito.

    E como ela tem as veias cerebrais (e do corpo) tortuosas e finas, nada de gorduras fortes… Mas isso estou tirando das minhas leituras e mais nada.

    Porque quando chego nos médicos, a única coisa que tenho recebido é uma grande interrogação estampada no rosto. De todos.

    Os preços das consultas (e são vários os especialistas) e dos tratamentos (fisio, hidro, fono, etc) tem sido o impedimento para buscar um bom médico ortomolecular.

    Você acredita que para receber uma pensão do estado eu tenho que comprovar que tenho uma renda de 1/4 de salário mínimo? Pois é, este é o nosso Brasil.

    A menina-Menkes da Itália recebe ajuda do governo em todos os sentidos. A mãe dela, inclusive, já que não pode trabalhar porque dedica o tempo todo para sua filha.

    As seis meninas apontadas pela literatura médica são oriundas de grandes centros. Agora imagina, se nesse nosso pais enorme não existem outras garotas que não andam, não conseguem pegar objetos, não falam, espalhadas por aí… Com deficiência genética de cobre.

    Espero não tê-la constrangido com o meu pedido, sei que o quanto é dificil dizer alguma coisa sobre algo tão misterioso e controvertido. Mas estamos todos no escuro e qualquer luz é muito bem-vinda.

    Grata,
    Zoe

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  19. Oi, Zoe, lamento não ter conhecimentos suficientes para poder ajudar. Minha área é mais promoção da saúde através de alimentação e bons hábitos. Gosto muito da homeopatia e, no seu lugar, acho que tentaria sim. Tentaria também a moringa. Um abraço e boa sorte em tudo!

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  20. Grata, Sonia! Vou procurar a moringa.

    Abraços,
    Zoe

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  21. Grata, Sonia! Vou procurar a moringa.

    Abraços,
    Zoe

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  22. Olá, Sônia! Faz algum tempo que acompanho o seu blog, do qual gosto muito! Hoje eu achei necessário escrever, mais do que nunca, pois tenho um sobrinho de quatro anos de idade e ele vem sendo tratado de sinusite, agora apareceu a asma, toma vacinas para alergias, morava no norte do país e agora está no Rio (capital) e seu estado só vai agravando com o passar do tempo. A mãe dele foi a um médico, recentemente, que levantou a possibilidade de se tratar de um problema na imunidade do menino, e não um processo alérgico. Ele se disponibilizou a ajudar, estudando o caso específico da criança. Sei que a alimentação em geral é o primeiro passo para uma vida saudável e que em geral se oferece muitos produtos industrializados às crianças.
    Será que o óleo de coco e os lactobacilos (nesse caso o que corresponda ao Vital Imune, por exemplo), poderiam ajudar na saúde do menino? Agradeço e, caso possa me enviar algumas palavras sobre o assunto, poderei ajudar mais.

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  23. Carina, sugiro fazer um exame parasitológico de fezes no laboratório do dr Helio Copelman, aí no Rio, tel 2548-0648. (Não tem convênio e não precisa de pedido médico.) Se for o caso, uma boa vermifugação vai ajudar esse menino a recuperar a saúde e a imunidade. Além de boa alimentação, é claro. E quem sabe um(a) médico(a) homeopata.

    Mais sobre vermes em http://www.correcotia.com/vermes .
    Um abraço!

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  24. Agradeço por sua ajuda. Acho que agora “vai”… Depois eu conto como foi. Um grande abraço! Carina.

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  25. Gislene Oliveira // 5 julho 2012 às 23:49 // Resposta

    Boa noite Dra Sonia,
    Por favor meu filho de 11 anos tem plaquetas baixas e faz acompanhamento, eu gostaria de saber se a senhora já ouviu falar em Multimistura que auxilia no aumento das plaquetas ? Se sim, onde eu posso comprar aqui em SP ?
    Obrigada e no aguardo.

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