Na intimidade da boca

177-P1030701Gosto, sabor e paladar são três palavrinhas que se alternam com muita naturalidade quando falamos nessa coisa tão prazerosa que é comer. Gosto, pessoal e intransferível, se aplica a muitos aspectos da vida e também se confunde com sabor, que costuma ser a marca registrada do alimento. Paladar é o sentido que percebe os sabores na boca – sempre assessorado pelo olfato, esse mestre das sutilezas. Enquanto as papilas da língua discernem o doce do salgado, do amargo e do ácido, e as mucosas sofrem ou não com o picante, é o cheiro percebido no alto do nariz que define a diferença entre laranjas e tangerinas e confere sabor ao ardido das pimentas. Por isso a comida fica sem gosto quando o freguês está resfriado.

“Na intimidade da boca percebemos as formas que vão se tornar a nossa forma”, diz o professor Jean-Marc Eyssalet, referindo-se justamente a um dos fundamentos da medicina tradicional chinesa: comida. Espera-se que com uma dieta o desconforto do paciente se resolva. Se não, entram os chás. Se ainda assim persistir,  aplicam compressas, massagens, moxabustão, acupuntura.

Os chineses identificam cinco sabores, puros ou misturados – doce, salgado, amargo, ácido e picante; cinco naturezas – fria, fresca, neutra, morna e quente; cinco movimentos – para cima, para baixo, para fora, para dentro e neutro. Classificam os alimentos de acordo com sua percepção das cinco fases do todo, chamadas emblematicamente de água, madeira, fogo, terra e metal, e apontam ainda os meridianos de energia com os quais os alimentos interagem. Olham as cores, as formas, o jeito de crescer na terra… A cenoura, por exemplo, é uma raiz que se aprofunda na terra, por isso reforça a energia dos rins; ajuda a limpar o fígado e é adequada ao inverno. O nabo comprido, além de também ser raiz, é picante, por isso ajuda a limpar pulmões e dissolver gorduras.

Cada sabor está ligado a um setor do organismo. Ácidos afetam fígado e vesícula biliar, picantes remetem a pulmões e intestino grosso, amargos têm a ver com coração e intestino delgado, salgados se ligam a rins e bexiga e doces agem sobre pâncreas e estômago. Essa relação se verifica na prática, e prática é tudo na abordagem ancestral chinesa, que se baseava não em hipóteses mas na observação e classificação de todos os fenômenos. Assim, por exemplo, um pouco de limão (ácido) é bom para o fígado, enquanto muito limão, gordura e vinagre (ácidos) são ruins. O mesmo sabor pode atuar positiva ou negativamente sobre a pessoa, dependendo de sua condição, da quantidade, da frequência. Um ou dois cafés (sabor amargo) podem fazer bem ao coração; muitos, a tendência é fazerem mal. O sabor naturalmente doce das abóboras e cebolas cozidas é bom para estômago e pâncreas, enquanto o doce feito com açúcar os esgota. É da mistura correta dos cinco sabores que depende a harmonia da vida.

Nosso tão brasileiro feijão com arroz beneficia os rins (feijões), intestinos e pulmões (arroz).  Inhame limpa o sangue e também ajuda intestinos e pulmões. Carne vermelha, pouca, fortalece o estômago, o pâncreas e as grávidas. Verduras e ervas amargas fazem bem ao coração. Gotas de limão por cima da comida vão ajudar o trabalho do fígado. Papas de arroz longamente cozidas nutrem convalescentes, bebês e velhinhos.

A ideia é simples: se somos o que comemos, podemos escolher boa parte do que somos. É da mistura correta dos cinco sabores que depende a harmonia da vida.

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