Umeboshi nossa de cada dia

A arte de tratar é tão antiga quanto a vida, e alguns remédios usados há milênios podem ser o máximo quando você procura soluções novas para probleminhas corriqueiros. Sem esquecer que dos corriqueiros é que nascem os graves.

Por exemplo, umeboshi: uma ameixa ácida e salgada que os japoneses usam quase todos os dias, para prevenir ou curar. Dor de cabeça, indisposição, gases, enjoo, indigestão, ressaca, cansaço, gripe? Ameixa pra dentro, deixando dissolver devagar na boca ou desmanchando em água quente ou banchá: sabor instigante, efeito muito rápido.

Ume é o nome da ameixinha, na verdade um pequeno pêssego que parece uma azeitona gorda, verde, tão ácida que não dá para comer ao natural. Boshi quer dizer que ela virou conserva, depois de passar um ano e três meses amadurecendo com sal e folhas de shissô.
Mas tanto tempo assim?, você se espanta. Pois é, tempo indispensável para o sal e o ácido alcançarem equilíbrio perfeito: nada mais é salgado nem ácido, e o resultado é não só saboroso como antisséptico, bactericida, antiviral, antioxidante, desintoxicante, energizante e regulador do equilíbrio ácido/alcalino, para não dizer tudo. Merece lugar de honra na farmácia caseira e é a melhor companheira de viagens: absolve os pecados da boca e desinfeta até água contaminada.

Você a encontra na maioria das lojas japonesas e de produtos naturais, e não é cara. Mas muito mais interessante é prepará-la em casa. Fácil, custa menos, você controla pessoalmente o ano e pouco de maturação e ainda desfruta do caldo que ela solta, um vinagre salgado muito gostoso que neutraliza rapidamente problemas de estômago e intestinos (uma colher de sopa numa xícara de água bem quente, beber aos golinhos). Seus amigos adorariam ganhar umeboshi de boa procedência, e ao longo dos anos você poderia colecionar ameixas de várias safras e origens!

Achou graça? Mas as conservas em salmoura são prova de que já éramos inteligentes milênios atrás… Tudo isso, juro, com um mínimo de trabalho. Não se deixe impressionar pela demora – o tempo é a coisa mais relativa do mundo. E a paciência, afinal, existe para quê?

Primeiro passo: encomendar ao verdureiro japonês dois ou mais quilos de umes verdes, que aparecem no mercado em alguma altura de agosto ou setembro, depois somem. Conseguiu? Estão firmes e polpudas? Lave delicadamente, seque bem uma por uma, jogue fora as imperfeitas. Aí, com um palito de dentes, tire de cada ameixa a tampinha mínima que fica na base do cabo.

Segundo passo: calcular a quantidade de sal marinho, que deve corresponder a quinze por cento do peso das ameixas. Por exemplo: dois quilos de ameixa, 300 gramas de sal.

Terceiro passo: montar uma prensa, arranjando um prato que sirva de tampa interna para uma vasilha bem funda de louça, barro, pedra, vidro, pirex, madeira. Nela você coloca as ameixas e o sal, sem deixar que ultrapassem a metade da altura da vasilha. Por cima, o prato, que ao mesmo tempo tampa e pressiona as ameixas, graças a um peso que seja o dobro do delas (2 quilos de ameixa, 4 de peso: podem ser pacotes de feijão e arroz, por exemplo).

Cobrindo tudo, uma toalha leve de algodão para proteger de poeira e intrusos. O que se passa lá dentro é que o peso força a ameixa a soltar seu caldo, que dissolve o sal, que por sua vez impede a presença de bactérias indesejáveis na área.

O balé bioquímico fica ainda melhor um mês depois, quando o verdureiro japonês apresenta as folhas de shissô (Perilla frutescens), cheias de aroma e sabor, com sua cor avermelhada e poder incomparável de conservar alimentos. Também elas são lavadas, secas, polvilhadas com (pouco) sal, amassadas nas mãos e misturadas à conserva, que a esta altura pode sair do peso e passar para um vidrão de boca larga.

É nesse vidro, tampado e bem guardado no escurinho do armário, que a umeboshi vai esperar 18 meses antes de nos tornar felizes para sempre. Podemos até fazer uma nova conserva enquanto a primeira não fica pronta. Quanto mais antiga, melhor. Depois de três anos pode ser consumida até por crianças e hipertensos.

Cuidado só para não abusar, principalmente se não souber a idade da umeboshi: o excesso faz mal aos rins e ofende o estômago.

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Quem vende umeboshi confiável, curada pelo tempo certo?

Em SP e no Rio, dois restaurantes medicinais: Satori, tel 11 3242-9738, e
Metamorfose, tel (21) 2262-6306.

No Rio e em Niterói, Maria Luiza Yao tem não só umeboshi (200g: R$ 15,00) como o licor feito com ela, que é uma delícia (R$ 19,50). Contatos por email: mlyao@uol.com.br . Maria Luiza também tem sabão em barra ecologicamente correto, ótimo para roupas encardidas e louças em geral, e um molho de pimenta maravilhoso, pra quem pode…

2 comentários em Umeboshi nossa de cada dia

  1. Maravilhada com os ensinamentos. E como você os escreve e descreve me faz um bem enorme. Obrigada pela sua generosidade.

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