Danças circulares e meditativas, conhece?

Encontramos no YouTube um vídeo de Berenice Toledo que junta som, forma, cor e movimento à minha crônica sobre danças circulares. Vai ela aqui, e o vídeo está em https://youtu.be/ko_S_bNaxZ0 .
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Danças circulares

Na festa da vida, encontro Judith Munk brincando
de roda. O vestido de verão soltinho no corpo,
rosto corado, olhos alegres. Pergunto como vai e a
resposta vem cheia de música: “Eu? Eu vou sempre
bem! Venha, vamos dançar, venha…”

Na ampla sala do apartamento, um grupo de mulheres
descalças forma o círculo. Alguém coloca um CD
e a dança começa – para um lado, para outro, três
passos à frente, volta, passa por trás… Vou seguindo
como posso, lembrando minha primeira aula de tai
chi chuan, onde também não sabia os movimentos.

Aos poucos, a coreografia vai entrando. Não é tão
complicada, afinal. Mas acaba logo e começa outra.
Esta, me explicam, vem dos índios americanos.
Os passos são diferentes. Alguém me ensina a
voltinha, a música começa, e lá vamos nós, índias
americanas. Depois entra uma música grega – divertida,
com aquele jeito Zorba de dar um pulinho e
levantar a perna, e lá vamos nós, gregas, sempre em
roda, dando as mãos, soltando, girando. Dançamos
então uma música chinesa em que o vento nos balança,
em seguida uma música judaica que mostra
o sábio e o louco, e depois outras, e outras mais.

Minha amiga tem 82 anos e está feliz. “Por que
não estaria?”, diz ela. “A vida é tão simples, não existe
problema, as pessoas é que complicam as coisas!”
Fala com a autoridade de quem viveu muito,
viajou o mundo inteiro, conheceu de tudo e se despojou
do que não interessa. Pesco pérolas: “Outro
dia percebi claramente como tudo no universo
funciona tão bem, e eu sou parte disso. O que posso
querer mais?”

Na parede do corredor, um aquário seco. “Dá
menos trabalho!”, ri. Cheio de conchas, corais, estrelas
do mar, coisas que ela mesma pegou mergulhando
de snorkel pelo mundo afora. Nunca quis usar uma
garrafa de oxigênio – nunca, até os 78 anos, quando
foi a Fernando de Noronha e conseguiu convencer
todo mundo de que podia ir lá no fundo, mesmo
sem ter experiência anterior. Devia ficar no máximo
20 minutos; ficou quase uma hora. “Moleza!”, me diz
rindo, com seu gostoso sotaque húngaro.
Pois é, estrangeira. Como tantos que o Brasil
acolheu ao longo dos tempos e que encontraram
aqui um lar. E ela, como o Brasil, deixa a porta da
casa aberta.

Pesquiso na internet sobre as danças circulares
e aprendo que esse movimento surgiu nos anos 70
na comunidade de Findhorn, Escócia. Houve um
encontro sobre renovação da espiritualidade e um
professor alemão de dança apresentou a tradição das
danças sagradas circulares. De lá para cá, inúmeras
pessoas foram tocadas pelo resgate do que sempre
nos fez dançar juntos quando celebramos a vida, a
morte, os ciclos da terra e da lua, os encontros, as
despedidas. Rituais do mundo inteiro, e de todas as
etnias, originalmente reuniam as pessoas em roda.
Com o passar dos séculos a roda transformou-se em
duas linhas, depois começamos a dançar aos pares
e hoje dançamos sozinhos. Qual seria o sentido,
afinal, de voltarmos a dançar todos juntos?

Frases na rede respondem que, quando você
mal conhece os moradores da porta ao lado, dançar
junto tem o dom de criar harmonia rapidamente e
sem palavras. Que existe um poder no círculo, no
grupo de pessoas que se dão as mãos e se movem
juntas, em harmonia com ritmos, melodias e passos
que sobreviveram aos séculos. Que as danças circulares
restabelecem sentimentos comuns a todos os
seres humanos e por isso são tão transformadoras.
Ninguém precisa ser treinado em dança, basta
entrar de coração aberto para compartilhar esse
transbordamento de espírito e de alegria.

Olho para Judith e penso em Shiva Nataraja,
o deus hindu que dança porque tudo o que existe,
vivente ou não, pulsa em seu corpo. Nele se vê todo
o movimento cósmico. Nele a arte e a espiritualidade
são uma unidade perfeita, escolhida para representar
o divino porque, na dança, o que é criado é
inseparável do criador.

Saio de lá de bem com a vida. Obrigada, amiga.

(do livro Paixão emagrece, amor engorda, escrita em 2005)

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Por falar nisso… estarei lá!

danca-meditativa2016

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