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Deu no El País: Medicamentos em busca de doenças

posted 2021 Jul by

de: Andres Cebrian
para: Deixa sair
do jornal espanhol El País, 9 julho 2012
autora: Milagros Pérez Oliva

Dois grandes laboratórios farmacêuticos, GlaxoSmithKline e Abbott, aceitaram nas últimas semanas pagar multas astronômicas por ter incorrido em práticas graves na promoção e venda de medicamentos. Ambas as companhias se reconheceram culpadas e fizeram acordos extrajudiciais para evitar males maiores, caso os processos chegassem a juízo. Essas más práticas incluem vender medicamentos para patologias para as quais não são indicados, pagar presentes e subornos para que os médicos os prescrevam e, o que é mais grave, ocultar a existência de efeitos adversos.

O que está por trás dessas multas multimilionárias é a estratégia adotada por alguns laboratórios no final dos anos oitenta para incrementar os lucros, não através de novos e melhores fármacos, algo cada vez mais oneroso, e sim conseguindo novas indicações para seus velhos medicamentos. Essa estratégia inclui a criação artificial de doenças, o que em inglês se conhece como disease mongering, ou seja, a intenção, que muitas vezes dá certo, de converter processos naturais da vida como a menopausa, a tristeza ou a timidez em patologias suscetíveis de ser tratadas com drogas.

GlaxoSmithKline, a terceira maior farmacêutica do mundo, com um faturamento de 33.998 milhões de euros em 2010, terá agora que pagar 2.400 milhões de euros por ter promovido durante anos a prescrição para menores de um antidepressivo, o Paxil, autorizado unicamente para adultos pelos efeitos adversos demonstrados em pacientes jovens; por ter indicado outra droga, o Wellbutrin, para processos em que não tinha atividade terapêutica demonstrada, como a obesidade e a disfunção sexual; e por ter ocultado que um de seus medicamentos mais vendidos, o Avandia, aprovado para tratar diabetes, aumentava o risco de afecção cardíaca.

Essa foi considerada a maior fraude da história, mas não era a única. Em maio, a farmacêutica Abbott chegou a um acordo similar e aceitou pagar uma multa de 1.225 milhões de euros por ter estendido o uso de um anticonvulsivo aprovado em 1983 para tratar epilepsia e transtorno bipolar a outras patologias em que não tem qualquer eficácia provada, como a agitação dos idosos com demência senil. O laboratório pagou durante 10 anos a médicos e residências de idosos para que prescrevessem a droga. Também a Pfizer aceitou pagar em 2009 uma multa de 1.800 milhões de euros pela promoção fraudulenta de outros 13 medicamentos.

A comercialização do Paxil em 1999 é um exemplo paradigmático de disease mongering. Até este momento de reconhecia como entidade patológica a a agorafobia, um transtorno muito severo cujos portadores são incapazes de sair de casa e quando o fazem podem sofrer ataques de pânico. O lançamento do Paxil se centrou em uma nova entidade, a fobia social, que dava muita margem já que podia abranger desde formas leves de agorafobia à simples e rasa dificuldade para falar em público. Paxil se apresentou com grande presença na mídia como a pílula da timidez e o laboratório elegeu para seu lançamento na Europa a cidade de Londres, capital do reino onde, segundo a propaganda, há mais tímidos.

O Paxil era na verdade um velho antidepressivo, a paroxetina, que voltava ao mercado com nova roupagem e, claro, novas indicações. Quando os foruns de saúde pública criticaram o laboratório por essa manipulação, os responsáveis culparam a imprensa pela distorção. Mas em seu discurso diante da assembleia de acionistas, o executivo responsável pelo fármaco, Barry Brand, foi muito sincero: “O sonho de todo comércio é dar com um mercado por conhecer ou identificar, e desenvolvê-lo. Isso é justamente o que conseguimos fazer com a síndrome de ansiedade social.”

Na mesma época do Paxil, um número grande de drogas conhecidas como pílulas de felicidade foram para o mercado, destinadas a nos livrar, com um glup!, das angústias, temores, fobias e frustrações que inevitavelmente nos acompanham na vida. Na maioria dos casos eram princípios ativos com eficácia demonstrada em outras patologias. (…) Assim se passou muitas vezes do velho paradigma de “doença em busca de remédio” ao mais lucrativo “remédio em busca de doença”.

Essa estratégia, objeto de muitos artigos em revistas médicas, articula-se em três fases. Na primeira se trata de identificar as patologias, próximas ou não da indicação primitiva, em que se poderia justificar de algum modo a prescrição da droga. A segunda consiste em colonizar os meios de comunicação com estudos, reportagens e entrevistas, de aparência independente, sobre a importância social da patologia a tratar, e o muito que sofrem os que a têm. Uma vez sensibilizadas a população e as autoridades sanitárias,  entra a terceira fase: oferecer a solução. Para fechar esse círculo virtuoso é importante contar, se possível, com a colaboração dos próprios pacientes.

Em 1999 o escritório da PRNews, de Nova York, contabilizou um milhão de menções ao novo fármaco Paxil, o único aprovado até aquele momento contra a ansiedade social. Uma investigação posterior do jornal The Washington Post revelou que entre 1997 e 1998 se haviam publicado mais de 50 reportagens extensas na imprensa norteamericana sobre como era terrível a ansiedade social e o muito que estava aumentando.

A esta época pertencem também os dois fármacos que melhor simbolizam os grandes sucessos dessa estratégia: Viagra e Prozac. Pouco antes do lançamento do Viagra, os problemas da disfunção erétil tiveram uma surpreendente atenção por parte dos meios de comunicação. Entre os estudos de maior eco midiático havia um revelando que nada menos de 72% dos homens entre 40 e 70 anos, nos EUA, sofriam de algum tipo de dificuldade para conseguir ereção, o que era considerado terrivelmente alarmante para os especialistas que opinavam sobre o tema. A pílula azul teve tanto êxito que não só se prescreve em casos de autêntica disfunção erétil como em muito outros para os quais de duvida que tenha alguma eficácia. Ultimamente se usa também com fins recreativos, para prolongar a ereção. As consequências desses abusos não são divulgadas com estatísticas, mas há vítimas e mortes.

Para vender Prozac, os laboratórios se dirigiam ao usuário, não ao médico

A fluoxetina, princípio ativo do Prozac, foi aprovada nos Estados Unidos em 1992. Chegou à Espanha em 1997 precedida por uma intensa e exitosa campanha que incluía menções elogiosas em obras literárias e cinematográficas. A comercialização do Prozac incorporou uma novidade: pela primeira vez os laboratórios não se dirigiam aos médicos para aumentar a prescrição, mas aos possíveis usuários. Como era de esperar, bateu o recorde de progressão de vendas de um fármaco. Já no primeiro ano se venderam dois milhões de unidades, a maior parte às custas da Previdência Social, à qual se passou uma fatura de 9.200 milhões de pesetas [9,2 bilhões].

Para se fazer uma ideia do que essa cifra representa basta recordar que o lançamento do Prozac coincidiu com a promulgação da norma que introduzia na Espanha a comercialização de genéricos e o sistema de preços de referência. A aplicação combinada dessas duas medidas deveria produzir no primeiro ano uma poupança de 8.000 milhões. O Prozac comeu a poupança.

Seguindo fielmente a pauta do disease mongering, apresentou-se também o fármaco que devia ajudar as mulheres a superar essa fase tão terrível da vida que é a menopausa, protegê-las do infarto e da osteoporose e garantir a elas pouco menos que a eterna juventude: a controvertida terapia de reposição hormonal. De novo chegou ao mercado precedida de um grande número de reportagens e informes sobre as consequências da menopausa, que não só traz calores, secura vaginal, aumento de peso e dificuldade para dormir, como graves riscos para a saúde. Vários estudos haviam mostrado que a queda de estrógenos na menopausa faz as mulheres perderem a proteção que tinham quanto ao infarto e acelera a perda de massa óssea. Tudo isso estava certo, mas não era tanto que a nova droga tivesse os efeitos protetores que proclamava. Apesar disso, apresentou-se como a grande panaceia.

Como aconteceu em outros países, os chefes de ginecologia dos principais hospitais espanhóis convocaram a imprensa para recomendar que a terapia fosse ministrada em caráter preventivo a todas as mulheres a partir dos 50 anos e por um período de pelo menos 10. Afortunadamente, a Previdência Social não lhe fez caso.

Intensas campanhas promovem o reconhecimento de novas síndromes

Durante os anos seguintes uma série de estudos alertava sobre os possíveis efeitos adversos dessa terapia. Em 2002, quando na Espanha já a haviam tomado mais de 600.000 mulheres e nos Estados Unidos mais de 20 milhões, chegou o “jarro de água fria na eterna juventude feminina”, para utilizar a expressão com a qual o jornal The New York Times intitulou a matéria. O FDA interrompeu de chofre um estudo do qual participavam 16.000 mulheres, o Women’s Health Iniciative, que devia demonstrar todas as bondades e efeitos preventivos pelos quais se estava receitando. O estudo devia terminar em 2005, mas os resultados preliminares indicavam que o tratamento não só não tinha os efeitos protetores como a partir de 5,2 anos de tratamento aumentava o risco de surgir câncer de mama invasivo e acidente cérebro-vascular. Com o tempo se viu que o fármaco tem lá sua utilidade em casos muito concretos e muito cuidadosamente avaliados, mas nunca deve ser ministrado, como se pretendeu, como tratamento preventivo em caráter geral e menos ainda como “pílula”para combater o medo de envelhecer.

Enquanto isso, novas síndromes apareceram e são objeto de intensas campanhas para serem reconhecidas. Novos fármacos se somam à estratégia do disease mongering. A polêmica se centra agora no amplo leque dos transtornos da personalidade, da desordem bipolar e do déficit de atenção.

Efeitos adversos que não deviam vir à luz

Em 2004 se soube que a GSK havia ocultado que entre crianças e adolescentes tratados com Paxil se produzia uma taxa maior de pensamentos e condutas suicidas. Ao ser descoberta, a companhia chegou a um acordo extrajudicial e se comprometeu a publicar todos os dados de seus estudos clínicos. Enquanto isso, a investigação deste e de outros casos motivou em 2007 uma mudança legislativa nos Estados Unidos que obrigou as farmacêuticas a publicarem todos os dados dos estudos clínicos que fizeram. Essa norma permitiu descobrir que a GSK havia ocultado também dados comprometedores de seu fármaco Avandia, que se receitava para tratar diabetes.

A farmacêutica havia iniciado em 1999 um estudo secreto para averiguar se o Avandia era mais seguro que seu competidor Actos, da empresa Takeda. Os resultados foram desastrosos: não só não era mais eficaz como apresentava um risco significativamente maior de danos cardíacos. Esses resultados deveriam ter sido comunicados às autoridades sanitárias, mas, em lugar de disso, a companhia fez todo tipo de manobra para evitar que transpirassem. Uma investigação do The New York Times revelou em 2010 diversos memorandos internos entre diretores nos quais se advertia que os dados do estudo não deveriam ver, sob nenhum pretexto, “a luz do dia”.

Os riscos do Avandia foram confirmados em um estudo independente de um cardiologista de Cleveland. A GSK reconheceu que sabia dos riscos do Avandia desde 2005, mas as investigações posteriores indicam que a companhia já tinha conhecimento dos efeitos adversos não declarados desde antes de sua comercialização, em 1999, e não só permitiu a prescrição sem nenhuma advertência como fez todo o possível para ocultá-los, sabendo que havia alternativas mais seguras para os pacientes.

Manter a fatia de mercado do Avandia era uma questão estratégica para a GSK, em um momento em que seu portfolio estava órfão de novos produtos. Entre os documentos conhecidos agora figura um informe interno, no qual a companhia avaliava o custo que teria com a revelação dos efeitos adversos: 600 milhões de dólares, somente entre 2002 e 2004.

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