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Porto Alegre, até breve

posted 2019 Mar by

O convite era irrecusável: participar do seminário de encerramento da Semana do Alimento Orgânico em Porto Alegre, capital do estado que mais utiliza agrotóxicos no Brasil e que, talvez por isso mesmo, tem o mais vigoroso movimento de agroecologia. Só em Porto, como a chamam os íntimos, entre grandes e pequenas são 30 feiras. Dá para todos os gaúchos se abastecerem nelas. Dá também para levar meus livros, pensei. E lá fui eu com 100 quilos de bagagem, meio apreensiva com o frio, para o apêzinho que aluguei pelo Airbnb – mas ó alegria, não é que tinha um belo aquecimento? Passei lá uma das semanas mais gostosas da minha vida, como se estivesse de férias, em casa e trabalhando ao mesmo tempo. Ou não parece que dar palestras e fazer feiras é trabalhar? Hum… Pensando bem…

Muitas coisas boas aconteceram. A primeira foi encontrar ao vivo Laura Neis, que logo me apresentou Camila Brum, ambas envolvidíssimas com o viver agroecológico: Laurinha lançando a Mútua, rede de compra coletiva de alimentos orgânicos, Camila construindo um olhar de museóloga sobre as feiras como patrimônio imaterial vivo. As duas me acompanharam o tempo todo e deram uma dimensão de alegria e juventude à semana. Aí, a segunda melhor coisa: comer todo dia no restaurante Jacarandá, onde Cledir da Motta apresenta um show de culinária integral, natural, orgânica e afetiva.

Comida, vocês sabem, mexe comigo. Algumas são boas para todo mundo. Outras, só para iniciados. A comida de Cledir é dessas que propõem uma iniciação. A pessoa senta, come com calma mastigando bem e deixa sabores, aromas e texturas formarem aos poucos o entendimento de que nada é banal, tudo é perfeito. Seus fundamentos são da macrô, resultando em macrô gourmet. Que outra definição se poderia dar a um pargo (peixe também chamado vermelho) que marinou por três dias em missô e saquê antes de ir para a chapa quente? Ou ao prato que está na foto?

Ali na esquina, um minúsculo quiosque pousado na calçada servia café expresso orgânico. Ô coisa boa, cafezinho depois do almoço! Puro ou traçado? Sim, ele tinha leite de amêndoas, coco, castanha… Capuccino vegano… E essa foi mais uma coisa encantadora em Porto Alegre: festa de novos produtos comestíveis, por exemplo os fermentados. Molho de pimenta fermentado na barraca do Nelson Diehl. Queijinho de sementes de girassol fermentadas e amalgamadas com leite de aveia na barraca ainda-não-oficial do Igor. Pizzaria chamada “Fermentô”, com a massa fermentada por eles mesmos e só coberturas veganas, claro, fermentadas.

Falamos sobre tudo isso e muito mais no seminário de encerramento da Semana: o papel fundamental da agricultura familiar orgânica para o sabor da vida, a clareza nas escolhas alimentares, o solo e o tubo digestivo merecedores dos mesmos cuidados. Centenas de alunos de nutrição e de escolas agrícolas presentes. Cantores, poetas, violeiros, produtores agroecológicos, jornalistas, todos unidos em torno da ideia não só de viver melhor, mas de proporcionar também aos outros essa oportunidade. A vida não começa nem acaba aqui, precisamos resistir cada vez mais ao que nos destrói para poder preservá-la.

Voltei revigorada. Obrigada, Porto Alegre!

 

 

 

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