A VIDA COMENDO SOLTA

CAPÍTULO 2: A VIDA COMENDO SOLTA

O alimento mais importante do planeta Terra é a luz do sol. A clorofila dos vegetais a absorve e usa para converter dióxido de carbono em carboidratos simples, que por sua vez viram proteínas, lipídios e amidos que formam e nutrem as células vegetais que constroem as plantas. A partir daí, todo mundo se dá bem: plantas são comidas por animais herbívoros, que por sua vez são comidos por animais carnívoros e onívoros, que depois de mortos terão a carniça disputada por hienas, urubus, vermes e outros bichos de gosto duvidoso, e ao mesmo tempo todos dão de comer àquele sem-fim de parasitas que já conhecemos. No final, o que resta são compostos químicos, devolvidos à terra por fungos e bactérias característicos da putrefação e novamente aproveitados pelas plantas.

Parasitas são muito gulosos. Consomem tecidos, sangue, outros fluidos e o conteúdo intestinal nobre do hospedeiro, incluindo secreções digestivas. Quase todos dependem de glicose para obter energia, exatamente como nós. Tênias, fascíolas e lombrigas em geral podem armazenar até 60% de seu peso em glicogênio, fazendo reservas que duram até 24 horas caso o hospedeiro não lhes forneça nenhum carboidrato. Por isso é que a pessoa com vermes sente tanta atração por doces, que são uma forma rápida de conseguir glicose – parte do açúcar é absorvida pelas paredes do estômago e entra logo na corrente sanguínea.

Em termos de comida, o que os parasitas roubam de nós é relativamente pouco. Como são animais pequenos, a quantidade de nutrientes de que precisam para viver não significa grande coisa. O problema é outro: eles atrapalham a digestão e a assimilação de nutrientes.

Atrapalham a digestão porque ficam grudados nos órgãos que produzem substâncias digestivas, como fígado e pâncreas, ou nos canais por onde essas substâncias chegam ao intestino delgado; afetam a atividade das enzimas; os que vivem no intestino provocam alterações em sua estrutura, danificando as pequenas saliências por onde os nutrientes são absorvidos; provocam diarréia e vômitos que jogam fora a comida que já estava lá dentro.

Um fator agravante nas infecções parasitárias é que geralmente elas são múltiplas – vários tipos de vermes, cada um com suas bactérias, fungos e vírus, todos brigando pelo seu pedacinho de alguma coisa e produzindo toxinas sem parar. Como a fome e o apetite também diminuem em determinados momentos da infecção, o final da história é sempre o enfraquecimento do hospedeiro.

Temos três tipos de necessidades nutricionais: permanentes, vegetativas e eventuais. Permanentes para o dia-a-dia do organismo em situações normais; vegetativas para fases crescimento e gestação; eventuais quando há infecção ou dano aos tecidos, como cortes, queimaduras e lesões causadas por parasitas.

Se o hospedeiro não estiver com as duas primeiras necessidades nutricionais atendidas, dificilmente vai sobrar alguma coisa para a terceira.

Fora o fato de que desencadear uma resposta imunológica à infecção tem um custo nutricional considerável, mexe com o metabolismo das proteínas para liberar aminoácidos e geralmente utiliza as reservas do organismo. Se é que elas existem, já que nesses momentos o hospedeiro padrão se alimenta mal, digere pior e assimila quase nada.

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